No último sábado, 2 de maio, o Brasil assistiu — mais uma vez — a um espetáculo que já começa a ganhar contornos de tradição: reunir milhões de pessoas nas areias de Copacabana, a praia mais famosa (e talvez mais simbólica) do país, em um evento de escala global.
Por trás do show, no entanto, existe um movimento que vai além da música. Foram meses de negociações, tentativas e articulações. Este colunista apurou que Shakira não foi o primeiro nome considerado nas reuniões da Secretaria de Cultura. Outras divas pop estiveram na mesa. Mas foi a artista colombiana quem, ao fim, se mostrou mais disponível — e, sobretudo, mais alinhada à proposta do projeto.
Houve críticas ao atraso. Houve ruído. Mas, diante de questões de saúde, o episódio se dilui diante da dimensão do evento. E, convenhamos, o bastidor já circulou o suficiente. O que importa aqui é o que o Rio de Janeiro vem construindo com consistência.
O projeto “Todo Mundo no Rio” deixou de ser apenas um grande show para se tornar uma engrenagem estratégica. Impacta diretamente a economia, amplia a visibilidade internacional da cidade e reposiciona o calendário turístico ao ocupar, com inteligência, períodos antes considerados de baixa temporada.
E há mérito. Organização, segurança e operação funcionaram com precisão. Não por acaso, um dos comentários mais recorrentes entre o público foi a qualidade técnica — som e iluminação à altura de grandes produções internacionais. Não é detalhe. É posicionamento.
Mas talvez a pergunta mais interessante não seja sobre o que aconteceu — e sim sobre para quem isso está sendo feito.
Ao apostar em grandes nomes do pop, o Rio acena com clareza para um público específico: a comunidade LGBTQIAPN+. Trata-se de um grupo com alto poder de consumo, exigente e altamente conectado a experiências culturais e de entretenimento. O chamado pink money aqui não é apenas conceito — é estratégia.
Outras cidades já demonstram interesse em replicar o modelo. O desafio, porém, não está apenas no investimento ou na escolha de atrações. Está na execução. Existe um saber fazer que não se improvisa. Existe uma engrenagem que só funciona quando equipe, visão e timing caminham juntos.
Copacabana não é apenas cenário.
É discurso.
E, pelo que se vê, o Rio não está apenas promovendo eventos.
Está deixando claro que sabe exatamente qual lugar quer ocupar — e para quem.